Monday, January 17, 2011

SOBRE EUGÉNIO LISBOA

Por Carlos Adrião Rodrigues

Como dizia Rilke, a nossa pátria é a nossa juventude. Nem me lembro quando conheci o Eugénio. Provavelmente foi numa livraria, apresentados por amigo comum. Mas passámos os melhores anos da nossa vida, desde aí, em projectos comuns, na Lourenço Marques colonial ou provinciana ultramarina, e não temos nenhum de que nos possamos envergonhar. Ele foi a Associação dos Naturais e a sua (e nossa) Voz de Moçambique, foi o cineclube e a Objectiva, foi a TRIBUNA (1ª fase), foi a participação nas pontuais campanhas oposicionistas, foi o teatro de amadores (TALM), foi o Núcleo de Arte, foram os julgamentos políticos e o testemunho imprescindível dos intelectuais, como o Eugénio. Tudo isto foram batalhas em que investimos e travámos com muitas dificuldades, mas que sempre, sempre vencemos. Claro que não éramos sós, havia outros tão bons ou melhores que nós: o RUI KNOPFLI, esse magnifico poeta, autor, entre outros livros do premonitório “ O País dos Outros, hoje um tanto esquecido mas que havemos de ressuscitar, o Homero Branco, um dos melhores dirigentes associativos que conheci, capaz de sacrificar os seus interesses pessoais ao bem comum, o Gouveia e Lemos um dos melhores jornalistas portugueses, o Fernando Magalhães, outro jornalista de mão cheia, o Armando Morais e o seu idealismo e crença na humanidade e paixão pelo cinema que o levava a passar os fins de semana a mostrar, em nome do cine clube, à miudagem pluriracial dos subúrbios as maravilhas do Bucha e Estica, do Charlot e do Buster Keaton, o João Afonso dos Santos advogado dos melhores, defensor de presos políticos, autor de artigos notáveis (um deles, por ocasião da campanha de Humberto Delgado, valeu-lhe a perda de uma avença profissional), cineclubista de gema e, ainda por cima, irmão do ZECA, o Jorge Pais, um intelectual sério que seria um importante historiador de Moçambique se a morte o não levasse cedo de mais, o Rui Baltazar, grande advogado, colaborador activo de todos os projectos que implicavam a descolonização de Moçambique.
Toda esta gente e muita outra, como o Luís Bernardo Honwana, autor ajudado a lançar por uma magnifica critica do Eugénio Lisboa, o José Craveirinha, amigo de todos os dias e de todas as lutas, o Abner Mutemba preso politico, o promotor do português com sotaque africano na emissora A do ainda Rádio Clube de Moçambique e um dos fundadores da Rádio Moçambique, o Domingos Arouca, o já saudoso Malangatana e tantos outros que quase me atreveria a dizer o Moçambique inteiro, excepto os que viviam pendurados no orçamento, sabiam, de ciência certa, que Moçambique não podia continuar, por muito mais tempo, a ser uma colónia, mesmo disfarçada de província ultramarina ou de pseudo-estado.
Acreditávamos que a massa critica da população era a negra e que em relação a ela muitas injustiças deviam ser reparadas rapidamente, como seja o acesso ao ensino, à cultura e à saúde,
o desenvolvimento económico equilibrado e justo; e que a ela, à maioria, devia ser devolvido o poder político, em beneficio de todos. Aquela era a nossa pátria, na concepção de Rilke, porque a ela demos a nossa juventude.
A Lisboa ficou a dever-se a grande luta por uma cultura moçambicana que conjugasse a estatuária dos macondes, a ingénua poesia do seu povo e dos seus poetas, a sensualidade de danças e cantares, a beleza do seu artesanato, a força dos prosadores que começavam a surgir, com a universalidade da grande cultura, através da utilização do intermediário estético que era a língua portuguesa, paixão maior do Eugénio Lisboa. Ele sabia que a língua portuguesa era o principal factor capaz de fazer do Moçambique colonial um país e uma nação.
Este grande objectivo desenvolvia-se em pequenos episódios, hoje atirados para as brumas da memória, mas que convêm relembrar quando a memória nos ajude.
Lembro-me do entusiasmo do Lisboa quando, nas reuniões preliminares ao lançamento da Tribuna, o Gouveia Lemos definiu o jornal como devendo ter como público alvo o moçambicano de todas as raças, cortando com a prática de outros jornais de serem jornais de brancos para brancos. Para tal era necessário dispor de jornalistas negros que canalizassem para o jornal os subúrbios e os seus problemas, as injustiças laborais, a cultura africana e, também, os “fait-divers” do dia a dia do povo e o desporto que se fazia, não nos campos dos chamados grandes, nos campos mais pobrezitos da Mafalala e do Alegria, onde nasciam os Matateu, Vicente e Eusébio.Lisboa aderiu de imediato à ideia, sugerindo nomes, definindo estratégias e entusiasmando o Craveirinha e pondo em evidente cheque a acusação que por vezes lhe faziam de elitista. Claro que esta ideia tinha um obstáculo maior-a censura, Mas, apesar dela, a Tribuna foi pioneira e a sua visão teve continuidade no Diário de Moçambique, na VOZ AFRICANA e em outros jornais e revistas, como a TEMPO.

Lisboa esteve presente, como testemunha, em todos os julgamentos de cariz político. O primeiro foi no do poeta Virgílio de Lemos. O julgamento era no tribunal comum, por, apesar de ser politico, o crime porque era acusado não caber na competência dos tribunais militares. O crime de que Virgílio Lemos era acusado era o de ofensas à bandeira nacional, por no seu livro “Poemas do Tempo Presente” se ter referido à bandeira nacional como a “capulana verde e vermelha”, O depoimento do Lisboa sobre o papel dos símbolos na poesia, ilustrado com inúmeros exemplos eruditos da poesia mundial e portuguesa, a sua dissertação sobre a importância dos símbolos populares na literatura e a ligação que estabeleciam entre o sentimento do povo e o seu significado, destruíram completamente a acusação do Ministério Público. O depoimento do Lisboa, juntamente com o do Craveirinha, que enfatizou a dignidade da capulana como traje da mulher africana, dignidade que a acusação contra o poeta tentava destruir e o de Afonso Ribeiro que defendeu a legitimidade literária do símbolo e, com alguma ironia, contou que nas suas deambulações profissionais por Moçambique, muitas vezes constatara que quando alta entidade, ministro ou governador – geral, visitava cidades ou vilas do interior, os administradores distribuíam às mulheres capulanas verdes e vermelhas para irem receber as excelências. Perante isto o Juiz Mota fez uma brilhante sentença e absolveu o poeta. Este processo teve um desfecho original que, já agora, vou contar. O processo subiu à `Relação de Lourenço Marques e mereceu nova absolvição, de onde foi, em recurso para o STJ, em Lisboa, onde o poeta foi, de novo, absolvido.Com tamanha unidade jurisprudencial resolvi escrever à PIDE, que tinha apreendido a edição do livro, solicitando a respectiva devolução., obtive resposta dias depois dizendo que não podiam fazer a devolução porque os exemplares se tinham extraviado (estes nossos serviços públicos !) Sem grande esperança, escrevi nova carta à PIDE dizendo que se tinham perdido os livros, o que era difícil de prever dada a proverbial eficiência da organização, o melhor seria indemnizar o autor e mandava-lhe a conta, que rondava os 5 contos, na altura, era o principio da década de 1960, bastante dinheiro. Qual não foi o meu espanto quando, na volta do correio, recebi uma carta com cheque pedido, em nome do poeta. Deve ser o único caso em que a PIDE pagou livros apreendidos. Nós devíamos ter guardado o cheque, mas o Virgílio, preso havia mais de um ano à ordem do processo político que corria no tribunal militar, estava mal de massas e decidiu gastar o dinheiro.
O depoimento do Lisboa nos julgamentos do Craveirinha, a favor deste, foram notáveis, mas o proferido no 2º julgamento teve um efeito que, suponho, ele ainda hoje desconhece.
O Craveirinha e seus co-réus, entre os quais se encontrava o recentemente falecido pintor Malangatana Valente, foram julgados duas vezes por força da anulação do primeiro julgamento pelo Supremo Tribunal Militar, em Lisboa.
O primeiro julgamento foi um julgamento sério, presidido por juízes, tanto os militares como o civil sérios e competentes. O juiz auditor, civil, era o Dr. Martins da Fonseca que durante a sua prestação nos tribunais cíveis de Lourenço Marques deixou um rasto de seriedade, isenção e sabedoria profissional que lhe mereceram o reconhecimento da população e a admiração unânime, pela sua excelência, de todo o pessoal do foro, o que é difícil. Neste julgamento, todos os réus foram absolvidos com excepção do Joel, membro confesso da Frelimo, infiltrado no Sul do Save para formar o 4º comando operacional da Frelimo e recrutar aderentes, Não podia ser absolvido, em face das leis aplicáveis, mas a sentença foi moderada e equilibrada-4 anos, muito inferior às que estavam a ser aplicadas em Angola em casos semelhantes, mas muito bem fundamentada, com uma profunda análise da personalidade do Joel e relevando muito inteligentemente a sua preferência por uma solução pacifica para o conflito e por um acordo com Portugal. Foi assassinado pela PIDE na cadeia da Machava
O 2º julgamento, provocada por uma anulação mal fundamentada do primeiro, foi uma palhaçada de juízes submissos ao poder politico, Uma semana antes do inicio do julgamento já eu tinha em meu poder uma relação das penas que iam ser aplicadas e que foram tal e qual, apesar de eu as ter lido aos juízes durante as alegações, Mesmo assim não mudaram um jota, Não tiveram vergonha. Tinham-me sido fornecidas pelo DR, Azevedo Neves, médico da policia com quem um inspector da PIDE se tinha aberto.
Os juízes eram mais que suspeitos de parcialidade: o presidente era um oficial na reserva a quem constava tinham sido prometidas inúmeras benesses pela condenação de parte dos réus, com o que já se contentava a PIDE (depois, parece, deram-lhe menos que o prometido, mas é sabido que Roma não paga, pelo menos na totalidade, aos traidores), o juiz auditor, escolhido para o caso, era dos piores magistrados que passaram pela comarca de L.M. ; sobre o juiz militar asa tínhamos pouca informação; sabíamos ser um homem de direita, muito preocupado com o problema ultramarino e a sua solução.
Durante o julgamento, o juiz asa teve um comportamento muito interessado, ao contrário dos outros que queriam era despachar; interrogava com frequência as testemunhas de defesa, sem hostilidade, e procurando sempre averiguar o factor das ligações ás raízes portuguesas da produção cultural dos réus. Esta postura deu pano para mangas sobre o depoimento do Eugénio Lisboa que realçara que não só o réu que o tinha oferecido, o Craveirinha, era um grande amante e cultor da língua portuguesa, como todos os réus ali presentes tratavam o português como língua materna e tinham uma cultura determinada por factores africanos e portugueses o que fazia de todos eles, no longo desenvolvimento do processo histórico, mais aliados de Portugal do que seus inimigos; por isso ele considerava uma estupidez e total falha de espírito democrático perseguir judicialmente esta gente por divergências conjunturais, que no futuro não significariam nada. Como se provou, digo eu agora, quando há dias fomos ouvir uma missa por alma do Malangatana, um dos réus, no mosteiro dos Jerónimos, ladeados pelos túmulos do Camões e do Vasco da Gama e com o corpo do falecido presente
Esta tese calou fundo no espírito do juiz asa militar, que sobre ela interrogou longamente o Lisboa, interrogatório que a certa altura, mais parecia uma cordata troca de impressões, o que levou presidente do tribunal a interrompe~la dizendo que aquilo já não tinha interesse para o processo e que era preciso era andar depressa, com o que demonstrou a sua estupidez. O juiz asa deu então por concluída a inquirição, sintetizando-a, dizendo algo como isto: o que osr engenheiro quer dizer é que o governo está dando tiros nos pés quando persegue criminalmente este tipo de gente, ao que o Lisboa respondeu: Isso e muito mais.
Minha mulher, Maria Joaquina, seguia com muito interesse estes julgamentos, assistindo a todas as audiências e comentando-as depois comigo. Um dia, ao almoço, disse-me: Vocês já deram a volta ao juiz asa e, perante meu ar interrogativo, explicou Vi-o ontem na missa e estava angustiado; punha a cabeça entre mãos, como a espremer inspiração e ás vezes estendia as mãos para o altar como a pedir ajuda e a a sua face transpirava angústia. Aquilo era por causa do julgamento e vocês deram-lhe a volta.
Fiquei na dúvida se ela teria razão, mas quando foi lida a sentença ela vinha só por maioria, o que queria dizer que o juiz asa militar tinha votado contra. Isto quer também dizer que, no conjunto dos dois julgamentos a que foram submetidos os réus condenados foram-no por 2 juízes e absolvidos por 4.
Em outra ocasião, a “VOZ de MOÇAMBIQUE”, jornal em que Lisboa colaborava activamente, fazendo parte da sua comissão redactorial e sendo um dos orientadores da página literária, entrou em conflito grave com o Banco Nacional Ultramarino, potentado económico-financeiro, emissor da moeda local e que, na altura, tinha já estendido as suas garras ao “NOTICIAS” de LM, fazendo dele um porta-voz do governo.
Foi o caso que, quando da inauguração da nova sede faustosa do banco, a VOZ de MOÇAMBIQUE publicou um número com a fotografia da sede na capa e uma legenda, sacada de Winston Churchil, dizendo “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”; no interior, um magnifico artigo do Fernando Magalhães, gozando os luxos da sede, os mármores de Carrara, os tafetás luxuosos dos cortinados, etc.Os manda chuva políticos do banco não gostaram da graça e deram ordem ao Noticias, em cujas oficinas a VM era impressa, para a não imprimirem mais e fez pressão sobre as tipografias de LM, todas elas dependentes do banco para as suas actividades comerciais para não aceitarem a impressão do jornal.
Isto deu origem a uma forte reacção da nossa parte, com total empenhamento do Eugénio Lisboa, que não só colaborou activamente em toda a prosa que produzimos sobre o assunto (e foram cartas para o Noticias e para o Governador Geral), como alertou intelectuais portugueses e estrangeiros, seus conhecidos, para o incrível comportamento de um banco contra a liberdade de imprensa, o que originou várias manifestações de solidariedade. Ainda conseguimos publicar um número composto numa máquina IBM de escritório, por uma das melhores dactilógrafas do mundo, a Adelaide, e impressa numa máquina de offset também de escritório, com capa do pintor António Quadros, e que se esgotou, no qual denunciámos claramente o procedimento do banco. Na carta que escrevemos ao governador dávamos conta da situação, da impossibilidade em que estávamos, por pressão do BNU, de encontrar tipografia e pedindo-lhe que autorizasse que a impressão do jornal fosse feita na Imprensa Nacional. Recebemos resposta pouco depois dizendo que não podia atender o nosso pedido porque a IN só podia imprimir publicações oficiais. Estávamos à espera de uma resposta no género, porque logo retorquimos, em nova carta, dizendo que Sua Excelência devia estar equivocado porque era lá na IN que se imprimia o jornal UNIÃO, órgão local da União Nacional. Suponho que foi isto que deu a volta ao texto, porque pouco depois recebemos uma missiva da Tipografia Globo dizendo da sua disponibilidade para imprimir a VM. Quanto ao Governador nunca respondeu à segunda carta.
Mas porque conto eu estes episódios, em homenagem ao Eugénio Lisboa? Exactamente porque as criticas que alguns lhe faziam era precisamente a de ele entender que a obra de arte tinha um valor intrínseco que não dependia de uma mensagem social explícita, porque toda a arte era em si mesma progressista. Acusavam-no de ser admirador e promotor de escritores como o Régio e o Montherlant, que não passavam a vida a saudar os amanhãs que, segundo eles, cantavam. Mas o Régio do “não vou por aí” e o Montherlant verberando o colonialismo, não eram suficientemente progressistas para merecerem a admiração de alguém. Eram poucos os que assim pensavam, mas faziam muito barulho. Todavia os que acreditavam que a arte tinha um valor especifico que se não compadecia com espartilhos ideológicos, eram os que, em sociedade, tomavam as posições mais corajosas e coerentes em defesa da liberdade e da justiça e faziam reflectir esses princípios nas suas produções artísticas, cuidando, porem, de não as transformar em panfletos.

5 comments:

Antônio Maria said...

Este artigo, pedaço de uma História Moçambicana, com tantos personagens que são parte indirecta da minha própria história familiar, foram um verdadeiro deleite. Copo de leite quente com chocolate, em noites frias helvéticas.
Eugénio Lisboa é sem dúvida uma pessoa admirável, de uma cultura e integridade, louvável.
Principalmente no meio cultural actual, onde os "da corrente do be in and cool", se juntam aos "mamãe quando for grande quero ser artista e intelectual", faz urgente (re)aprender com profissionais desse quilate e bagagem cultural.

Obrigado Carlos, por relembrar e homenagear aqui, a grandeza do Eugénio Lisboa.

António Maria G.Lemos

Maria do Carmo said...

Será que fica mal a um irmão mais novo comentar, com indisfarçável orgulho, o Blog do irmão? Se é, que se dane! Com o teu último escrito fizeste que me viessem á memória factos,pessoas e situações que foram reavivadas.Todos voces nessa luta diária fizeram História,ensinaram a muitos de nós o caminho correto a ser percorrido e o porquê das coisas.Bem hajam por isso.Pena é que seja tao pouco reconhecido.Merecia, no minimo, uma Fundação Voz de Moçambique onde documentos, relatos e tudo que fosse possivel recolher,ficassem para testemunho desse vosso despercebido mas gigantesco contributo para os dias de hoje.Continua a escrever tudo o que viveste e testemunhaste.
Um beijo e um abraço do teu irmão,muito orgulhoso de ti

Vitor

Zé Paulo said...

Um beijo Tio Carlos.
Descanse em Paz!

Antônio Maria said...

Ao me chegar hoje a tão triste notícia, que o tio Carlos Adrião Rodrigues - que aqui tão deliciosos relatos da História moçambicana nos deixou para ler - não pude acreditar. Mas a vida é assim mesmo, cheia de chegadas e partidas. Sei que se de aqui partiu, foi para chegar mais depressa ás companhias que tanto lhe faziam falta. A começar pela tia Quina. Que a festa da sua chegada ao reduto de pessoas tão queridas e especiais que por aí estarão festejando tão boa companhia, seja mesmo de arromba. Pois quem sabe se assim nos pinga do céu, algumas gotas de alegria que encham um pouquinho, o vazio que aqui deixou. Beijos, sobrinho Tó Maria G.Lemos

Paulo Rato said...

Foi este o único local onde considerei poder queixar-me da mágoa que me causou a morte de Adrião Rodrigues, de que só tomei conhecimento pelo jornal.
Alguém da família talvez leia estas palavras, mas eu não os conheço. Só posso dizer-lhes como sinto a sua perda.
É para o Adrião, meu amigo, e para mim, que falo: e pouco me importa que não me leia ele.
Conheci-o Dr., como elemento de um CA da RDP de não muito boa memória (por causa daquele inacreditável Presidente, lembra-se?), sendo eu sindicalista e membro da CT. Não poucas vezes tivemos divergências, mas nunca poderíamos estar em posições opostas. Amigos ficámos. Prosseguimos o convívio no CO da mesma RDP, o Dr. passou a ser "o Adrião", sem Dr. Passámos a estar na mesma trincheira de defesa do Serviço Público. Quando nos afastaram desse reduto, fomo-nos encontrando por aí,sendo inesquecível o lançamento de um livro de Craveirinha, que o Adrião apresentou, de forma comovente, e no qual eu li uma selecção de poemas do grande poeta moçambicano: foi um privilégio ter participado e tê-lo ouvido.
Como foi um privilégio tê-lo conhecido, ter divergido e convergido, ter convivido, termos chegado à Amizade.
Mesmo como simples cidadão, teria de lhe dizer: obrigado, Dr. Adrião Rodrigues, pela exemplaridade da sua vida.
Só não lhe perdoo ter-se ido embora, assim, tão discretamente, deixando tanta coisa por contar.
Não lhe digo adeus: os Amigos, trazêmo-los sempre connosco, mesmo quando se ausentam.